2 de dezembro de 2013

A(s)cender.



Sentir, 
o desprezo me fez sentir, agora,
o oposto do que eu sentia.

Chorar,
amargar o pranto de não ter,
entalar o canto, mesmo em 
tanto querer.

Derrubar os muros, saltar.
Encontrar atalhos, trilhar.
Saciar a sede, gozar.
Desfrutar do gosto voar.

Entoar o grito,
sufocar o desgosto.
Encontrar a ponte, alcançar
a onde,
ninguém sabe pr'onde começar.

Olhar no alto,
na janela acima, clarear.
Uma fagulha surgir, uma centelha cair,
aqui no chão reluzir, afoguear.

E quando tudo parar,
em que mundo, entrar.
De que lado ficar, seguro.



(Júnior Vilas Bôas)

25 de outubro de 2013

A Inebriante Arte Onírica




Foi no sonho, estavam todos os amigos presentes. Uma singela comemoração de um aniversário, dentro de um quarto, no início não, mas pouco tempo depois percebeu-se que já conhecia tal aposento. Ornamentação barata, laços de fita, bexigas de toda cor. Ansiedade traduzida pelas batidas aceleradas do coração, garganta seca e suor nas mãos, tudo pela espera da aniversariante. É chegada a hora, ela apareceu! Primeiro um convidado, depois o segundo... Você, o terceiro. Não fazia a menor ideia do que desejá-la por completar mais uma primavera, entretanto, tinha muito a dizê-la. Agindo como sempre, ela tenta evitar a aproximação, o contato físico – por medo, pudor ou qualquer outra razão – ia abraça-lo rapidamente, mas o que se viu foi uma espécie de rede que aprisionam borboletas, formada pelo par de braços que tanto a desejava. Tentou disfarçar, encontrou as palavras convencionais para saudá-la com paz, felicidade e muitos anos de vida, mesmo sabendo que a felicidade estava estampada naquele momento, pois desejara a eternidade, ali, envolto nos braços da amada. Terminada sua fala como convidado para um aniversário, permaneceu o silêncio do amante. Segurou-a em seus braços por mais tempo, deixando claro que a queria ali por alguns minutos. Continuava incapaz de traduzir em palavras o que ansiava em dizer naquele momento, mas foi ajudado pela comunicação dos corpos em contato. O silêncio foi sincero, o olhar esclarecedor. Ela apenas entendeu e aceitou o que já sabia, não era novidade o seu interesse, mesmo tratando-o como culpado por sentir e alimentar aquele sentimento. Todos esperavam, ele não percebia, não enxergava nada mais ao seu redor, ela envergonhara-se, não sabia ao certo como reagir. Primeira tentativa, ela desvia, ele teme a rejeição, um aperto no coração. Todos os outros presentes soltam aquele “uhhh”, como uma torcida num estádio, depois que a bola passa beijando a trave. Vem a segunda tentativa, ela deixa aparecer um sorriso de canto, demostrando timidez, a “torcida”, entusiasmada, grita como empurrando o time pra frente, ele respira, mantém a calma, sabe que não pode desperdiçar aquele momento. Não abraça a euforia dos outros, entende que pra ele vale muito, é a ponte para a eternidade. Então, levanta a cabeça, olhos nos olhos, sua vista confusa por ter os olhos marejados, passam um tempo até se conectarem através do olhar, os corpos recebem o sinal. O “estádio” antes cheio, agora está vazio, o tempo parou, os lábios se tocaram, o beijo aconteceu. Por dentro, o coração sentindo o pulsar da vida, assustava-o. Terminado o beijo, olhou-a, sorriu, uma lágrima escorreu. No peito, algo continuava a sufocá-lo... Acordou...

Foi no sonho.




(Júnior Vilas Bôas)

PS: A escrita do texto, juntamente com a postagem, foi acompanhada pelo som do novo Cd de Humberto Gessinger, Insular. Fica a dica musical!

2 de outubro de 2013

A arte de errar.



As imprecisões estão mais do que consolidadas nas ações humanas, do que podemos imaginar. Construímos e desconstruímos coisas em questão de segundos. Acertar o alvo com a flecha, pode, no final das contas, quando nada o ajuda, ser mais fácil - do que obter todas as variáveis condicionadas à favor.

Construir um cenário, criar uma oportunidade, nos torna muito mais vulneráveis, evidencia nossas fraquezas, obrigando-nos sempre a ponderarmos as questões. E, como percebemos, ponderar, não necessariamente, é o que preferimos. Surge nesses momentos, a necessidade emergencial da procura por aliados, que sejam capazes de esclarecer algumas dúvidas e encorajar-nos.

Buscamos informações apenas para frear a mente, esta última, por sua vez, tem como característica inata, trabalhar por si mesma. Enxergar detalhes, ler as entrelinhas, notar as mudanças indesejadas. Quando desmentidas, o peito pulsa, aumenta-se os batimentos, a coragem eleva-se. Precisa-se de pouco para impulsionar os desejos de busca. Nossas vontades precisam de uma pequena faísca para incendiar.


São simples tentativas,
cenários complexos
vontades vorazes
desejos dinâmicos
imprecisas interações


A mente inquieta torna-se uma vilã ao simples ofício da escrita. Ser o coração e não o cardiologista evidencia as dificuldades em buscar entendimentos e traduções, quando se espera transbordar a folha com inúmeros caracteres, na ânsia de que suas palavras, até então, não ditas, possam encontrar, ao menos, o caminho dos olhos.


(Júnior Vilas Bôas)

6 de setembro de 2013

O (Des)encontro.



Tudo é física,
e o resto é poesia.
O que sobra é prosa,
e o que não cabe, fantasia.

A lágrima que escorre, molha,
do terreno seco brota, um alimento,
um simples sentimento que não existia.

O desencontrar reforça a certeza da procura.
Objetiva a atenção dada ao desejado, 
nutre o imaginário, reacende a busca.
Traz consigo a calmaria, perdida,
no simples ato do encontrar.


(Júnior Vilas Bôas)

8 de agosto de 2013

Moderno como um relógio antigo.




Acho muito interessante quem consegue relacionar vários fatores em suas obras, sejam elas, músicas, livros, filmes, ou qualquer expressão artística. Muito me admira os músicos, principalmente, que conseguem trazer junto às suas músicas, referências literárias. Confesso que tal fato seja fator determinante, para que eu me considere um fã, e assim, aprecie sua genialidade.

Não querendo ter a pretensão de comparar-me àqueles que me refiro como fã, mas sempre que escrevo, busco trazer inerente às palavras algo que tenha visto-ouvido-lido por aí. É algo que realmente me encanta. Saber que as coisas não estão sozinhas no mundo, que tudo pode ser relacionado.

Seja relacionando o segundo com o oitavo disco lançado por sua banda favorita, ou comparando autores literários, ou até mesmo, fatos históricos ocorridos no mês ou ano de nascimento [RS]. Parece loucura, mas...deve ser mesmo.

O que busco com isso? Boa pergunta! duvido que sejam apenas respostas.

Os dois últimos filmes que assistir, juntamente com o meu último livro digerido, ainda estão frescos na minha cabeça. Os filmes "Amour" e "Perfume de Mulher", são muito intensos, fortes, em seu desenrolar. Um conta a cumplicidade de um casal, que enfrenta um mundo cruel com aqueles que não mais "fazem a roda girar", porém, temendo o abandono e a separação, usam do sentimento nutrido um pelo outro, como uma arma para enfrentar seus medos e dúvidas. No outro, um homem acostumado às mazelas do mundo, consegue ter a sensibilidade para enxergar, mesmo sendo cego, a pureza e a força de um sentimento, por muito não compartilhado, protegendo-o, ainda que de forma rude, assim como um espinho protege uma rosa. Quanto ao livro, a obra clássica de Albert Camus, "A Peste", mostra a mudança na vida cotidiana de uma cidade atacada pela peste.

A dúvida no amanhã, e a dor de um passado, muitas vezes, não resolvido. Em todos eles, assim como nos sentimos quase sempre, somos reféns do tempo e dos caminhos trilhados. De escolhas acertadas ou não, pouco importa. O não tentar continua ferindo mais que uma decisão errada no final das contas, quando o tempo passa e, a ampulheta não possui mais areia na sua parte superior.


Cantarei,
canta-lo-ei meu verso
minha sina, em ser
um cantador.



(Júnior Vilas Bôas)

9 de julho de 2013

A linha que me leva.



Já havia levantado a questão da teoria dos 6 graus, que discorre sobre a proximidade das pessoas de todo o mundo. Fala sobre a distância média entre essas pessoas, sobre as chances de se conhecerem. Mas qual a  chance, em média, dessas mesmas pessoas, em se interessar pelas mesmas coisas? Calma! Não vai ser um texto técnico, com análises estatísticas...são apenas reflexões. [rs]

"todo mundo é uma ilha"

Apenas o que está guardado em pensamento é o que realmente nos pertence. O restante, pertence ao mundo, ao outro, ao todo. Na maioria das vezes, deixamos de perceber situações semelhantes a que estamos passando, exatamente, por não compartilharmos os pensamentos. Quando o fazemos, cresce a chance de identificar uma extensão no outro, e logo em seguida, notamos que tudo é comungado, e nenhuma sensação ou situação é única.

Por quantos exemplos de "ser ideal" cruzamos pela rua? E quantos dizem o mesmo de você? Não se sabe, nada é dito. As opiniões, as semelhanças, tudo isso liga as pessoas, constroem amizades, criam os laços. Quanto de nós é sabido pelos amigos? Quanta sinceridade (em média), é exigida no "livro de ética da amizade", para que a mesma seja verdadeira? (Ops, devaneios...rs) Quanto do outro foi passado para formarmos nossas opiniões a seu respeito? Quanta verdade ou lucidez, tem na linha que separa a mente, da caneta que desliza sobre a folha em branco?


Acredito que o principal conceito de amizade seja: o quanto você sabe do outro. Se for permitido quantificar, acredito que seja isso que meça.

Será que a lei dos 6 graus nos permite ser otimistas quanto aos compositores/escritores, que com suas obras fazem o papel dos amigos? Compartilhando experiências, nos dizendo como reagir ou pensar, em certos momentos, que, seja lá por qual força, se assemelham?

"Em que tronco encontro talhado o meu nome e o teu?
Em que sonho eu sonho o meu sonho igual ao teu?"

As músicas e os livros servem como pontes, ligando pessoas, situações, cenários e experiências. Da necessidade dos escritores e compositores em cuspirem suas artes, de torná-las do outro, unem-se diversas mentes mundo afora. A obra (arte) do outro, muitas vezes, reflete com facilidade tudo o que você quer exprimir, porém, o sol não rompe a banca, não traz à tona suas ideias. A sensibilidade do artista à serviço do outro, como uma extensão de si mesmo e vice-versa. Um interlocutor que se aproxima desafiando às distâncias físicas.

"Eu tenho muitos amigos
tenho discos e livros
mas quando eu mais preciso..."

Pessoas, músicas, livros...bem, escolham suas armas, monte seus exércitos, encontre seus aliados. A guerra já está aí, não se sabe seu fim ou início.




(Júnior Vilas Bôas)




PS: Dicas de músicas e livros são sempre importantes, então lá vai: 
Nescafé - Apanhador Só
De fé - Engenheiros do Hawaii
Apenas um rapaz latino americano - Belchior
A Peste - Albert Camus

9 de junho de 2013

Medo d'Mar



Tenho medo do mar,
da sua imensidão. 
Tenho medo do mar,
de não saber nadar.

Tenho medo das ondas, 
e da variação de humor
refletida no movimento das marés.

Tenho medo de mergulhar
e de como vou reagir, 
ao conhecer tua vida marinha.
Tenho medo dos mistérios
e do tesouro que vou encontrar.

Procuro um barco,
para com ele navegar.
Num mar sem ondas
com o vento à favor, navegar,
por entre teus mares,
além mar.





(Júnior Vilas Bôas)

3 de junho de 2013

Qual a lógica do sistema, razão-loucura?




Não pretendo entrar no mérito de uma discussão entre a emoção e a razão. Permito-me, apenas, mostrar uma preferência, ou uma busca, por ações racionais. Há muito, deixei para trás o, intrépido, ímpeto juvenil por uma postura mais condizente com minhas características e maneira de ver/pensar o mundo.

(*) Bem, não é uma receita ou forma pré-fabricada de pensar. Não estou ditando fórmulas, nem garantindo que, com a minha forma de enxergar as coisas, esteja eu, certo ou errado. Cada um pensa a própria vida à sua maneira.

A razão entrou em questão, mais uma vez, depois que assistir o filme: Deus no banco dos réus (God on trial), onde fica marcado intrinsecamente a capacidade humana em manter-se fiel à razão, mesmo em situações contrárias, as quais exigem que sejamos nada mais que animais selvagens lutando pela sobrevivência.

O filme nos mostra a história, que muito se diz ser verídica, de um julgamento em pleno campo de concentração em Auschwitz. O tribunal era formado por judeus, que exerciam diferentes atividades antes de serem aprisionados, seja um rabino, um físico, um da área do direito, um fabricante de luvas, entre outros. Em meio a toda aquela atmosfera enlouquecedora, resolvem "julgar" Deus, alegando que o Mesmo havia quebrado o pacto firmado com os "Filhos de Israel". E entre aquelas paredes, que guardavam todo o terror do Holocausto, uma única dúvida: Deus, inocente ou culpado?

A capacidade do homem de se refazer depois de alguns traumas, ou de manter-se forte diante de certas situações atípicas, desafia qualquer entendimento lógico. No caso do filme, o julgamento pode, também, ser interpretado como uma válvula de escape perante toda aquela loucura vivida ali dentro. O que seria contrário ao que se entende por uma razão.

"Qual é a utilidade da razão,
neste mundo gerido pela loucura?"

Como não pensar numa atitude costumeira, a qual seria, ali, naquele ambiente, todos começassem a rezar e pedir que Deus intercedesse por suas vidas? Entretanto, de alguma maneira, eles fazer o que não era esperado, questionam-o. Buscam respostas sobre o acordo, se os teriam abandonado à própria sorte.

A razão pode ou não estar agindo diante de tais acontecimentos, porém, nota-se que a mesma está atrelada à loucura. Os dois lados da moeda, não permitindo que se distancie. Vivendo em pares, buscando explicações, um explicando o outro. O calor e o frio, luz e sombra, a noite e o dia...

A loucura que gera a razão, usa a racionalidade para tentar entender a loucura presente no mundo.


PS: Querem saber o resultado do julgamento? Pois bem, devem imaginar que vou pedir para que vocês assistam. Uma coisa eu digo: Vale muito à pena!!



(Júnior Vilas Bôas)